Das cerca de 2,2 mil pessoas que vivem da reciclagem, apenas 120 pertencem a associações

Eduarda Costa

Das cerca de 2,2 mil pessoas que vivem da reciclagem, apenas 120 pertencem a associações

A regularização das associações e cooperativas de reciclagem é o primeiro e mais importante passo a ser tomado para aplicação da coleta seletiva em Santa Maria. Atualmente, apenas duas, das cinco associações que já existiram na cidade, devem passar pelo processo de regularização: a Associação de Reciclagem Seletivo Esperança (Arsele), que ocupa o espaço em que mantém sede, no Bairro Salgado Filho, e a Associação dos Selecionadores de Materiais Recicláveis (Asmar), que está alocada em espaço cedido pela prefeitura no Bairro Nova Santa Marta. Ambas não possuem situação legal para formalização dos contratos de parcerias com a prefeitura, pela falta de licenças ambientais.

Juntas, as associações abrangem cerca de 120 pessoas que vivem do material reciclável. Conforme a Secretaria de Desenvolvimento Social, em julho do ano passado, eram 541 famílias (média de quatro pessoas) inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) na modalidade de catadores de materiais recicláveis. Isso também significa que somente cadastradas no município são mais de 2.284 pessoas na atividade. Um levantamento feito pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), em novembro do ano passado, estimou, porém, que são cerca de mil famílias.

O processo de regularização ainda está na busca inicial de documentos internos do município, como a certidão de zoneamento e uso, para ocupação do território, para que seja encaminhado o licenciamento. Conforme Gerson Vargas Peixoto, superintendente de licenciamento e controle ambiental da secretaria do meio ambiente, o executivo ainda procura parceria com empresas e instituições para trabalhar na documentação necessária para encaminhamento na secretaria. O superintendente ainda garantiu que as associações serão regularizadas nas sedes atuais.

— A licença ambiental envolve documentações emitidas por outros órgãos do município, além de uma série de outros documentos, como o plano de gerenciamento de resíduos e o formulário de licenciamento, que contém a planta-baixa e as medidas de cada setor, que estão sendo conseguidas com ajuda de terceiros. Nós estamos como fomentadores do processo, buscando empresas terceiras para protocolar junto ao município para análise.

O executivo municipal já traçou como objetivo o lançamento de um contrato de coleta seletiva após o edital de coleta conteinerizada e convencional, que deve sair até o final de agosto. A ideia ainda está sendo elaborada, mas deve ser lançada por meio de um contrato exclusivo, contando com ecopontos nas escolas e uma estrutura que dê conta de coletar o material reciclável e destinar para as associações, diferente da última tentativa da prefeitura, com os contêineres laranja.

Associações em Santa Maria

Sem incentivo municipal e funcionando com condições de trabalho precárias, apenas duas associações de recicladores estão no processo de regularização administrativa e licenças ambientais. Contudo, na última década, pelo menos cinco recicladoras foram formadas em Santa Maria:

Associação de Recicladores Pôr do Sol (Arps)Associação dos Selecionadores de Material Reciclado (Asmar) – Em regulamentaçãoAssociação de Reciclagem Seletiva de Lixo Esperança (Arsele) – Em regulamentaçãoAssociação de Catadores e Reciclagem Noemia LazzariniAssociação de Recicladores de Camobi (Arca)

Trabalho nas ruas

Nenhuma ação para destinação correta de materiais recicláveis é promovida pelo executivo ou legislativo municipal no momento, tampouco pelas gestões anteriores. Todos os planos traçados até agora fracassaram por falta de planejamento e conscientização da população. Hoje, tudo que é reciclado na cidade depende do trabalho dos catadores, das associações de reciclagem ou da vontade de baixo número da população.

Fladimir Rodrigues, 57 anos, é catador, mas exerce a atividade pelas ruas e não está vinculado em nenhuma associação. Desempregado após o início da pandemia, ele passou a trabalhar com recolhimento de material reciclável para garantir o sustento da esposa e da filha. Rodrigues tem um roteiro padrão de coleta no Centro da cidade, e recolhe diariamente nos mesmos pontos, por meio de uma rede de contatos que ele conquistou junto de restaurantes, padarias e moradores.

Ao final do dia, caso ele não tenha preenchido carrinho com materiais, ele recorre às lixeiras e contêineres. É nesse momento que ele enfrenta maior dificuldade em seu trabalho, e se preocupa principalmente com os demais catadores, que diferente dele, não possuem material de proteção adequado para mexer nos resíduos, como luvas e botinas.

— A gente trabalha por centavos, então, temos que recolher todo o material que der. Eu ainda acredito que as coisas possam melhorar, mas eu vejo na rua poucos catadores com luva, uniforme ou uma botina para trabalhar. A sociedade de Santa Maria precisa ter mais consciência, do que é permitido colocar dentro de um contêiner, e o que pode ser útil para nós. Porque não é lixo se é reciclável.

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Asmar destina por mês 150 toneladas para reciclagem

A Associação dos Selecionadores de Materiais Recicláveis (Asmar), no Bairro Nova Santa Marta, recebe, tria, compacta e destina cerca de 150 toneladas de resíduos recicláveis por mês. São aceitos vidros, metais, plásticos, equipamentos eletrônicos, eletrodomésticos, papéis e papelões. São cerca de 1,4 mil pessoas e empresas da cidade cadastradas, que fazem parte da rotina de recolhimento da empresa.

Diariamente, dois caminhões fazem os roteiros entre os bairros de abrangência da Asmar, que descarregam na sede. Praticamente todos os materiais são separados por cor, entre branco e colorido, pois a densidade interfere no preço e na reutilização. Os papéis e documentos de sigilo precisam passar pela picotadora. Os demais, plásticos, metais e caixinhas de leite vão direto para a prensa, para serem organizados em lotes.

— A separação por cor vale mais tanto para quem compra quanto para nós. Por isso nos organizamos para separar, porque o branco vale mais. E depois de reciclado, o vidro, a caixinha de leite, o papel e o papelão voltam todos da mesma forma. Nós estamos consumindo, as pessoas dão o destino, e isso dá serviço para nós e nós estamos contribuindo com a natureza — explica a Vera Lúcia Carvalho, recicladora há 10 anos.

Os papeis brancos compactados

O plástico durante o momento da prensa

A equipe da Asmar é composta por 25 famílias, que possuem seus empregos e rendas gerados diretamente pela reciclagem. Uma dessas famílias é a da Margarete Vidal, recicladora há quase 30 anos. Ela e o filho trabalham na associação, ele no escritório e Margarete com os materiais. Foi através deste emprego que os dois se profissionalizaram e sustentam sua família desde os anos 1990:

— Se eu sou alguém hoje, eu devo a esse trabalho. Porque a gente conseguiu estudar e ter um entendimento do nosso trabalho. Ninguém veio para cá porque já gostava de ajudar o meio ambiente, a gente veio pela necessidade, então a gente procurou buscar estudo para se profissionalizar e fazer nosso empreendimento funcionar. E é um trabalho que a gente vê como uma coisa essencial, e quando a gente se vê praticando uma coisa correta e essencial, tudo fluí.

Quinzenalmente a empresa encaminha todos os materiais já compactados em lotes, para uma empresa “atravessadora”, que fica responsável pelo transporte do conteúdo da recicladora até as fábricas de reciclagem. O lucro de todo o material recebido e compactado só é repassado em parte para a Asmar, já que o restante fica para o atravessador. Os únicos materiais vendidos diretamente pela Asmar são o vidro e a sucata retirada dos eletrônicos e eletrodomésticos, e que não necessitam de transporte pelo atravessador.

Destinação gratuita

O engenheiro civil José Mariano Ravanello, 68, destina há pelo menos 3 anos todo o material reciclado consumido pela família à Asmar. Ele conta que o costume começou quando a sede da associação estava no Bairro Nossa Senhora de Lourdes, e mesmo com a mudança, seguiu com o hábito. Na última semana, ele havia realizado uma faxina em revistas e documentos antigos, e levou toda a remessa para a Asmar.

— Sempre que a gente reúne uma quantia que enchemos a camionete, a gente vem e traz aqui na Asmar. Agora com a pandemia compramos muito pela internet, e os produtos vem em caixas, e as caixas são o material que dá um bom valor agregado para eles. Então a gente guarda, colocamos os papeis e embalagens plásticas, e trazemos para eles.

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Como se cadastrar

Para se cadastrar e fazer parte do recolhimento da associação, basta enviar e-mail para [email protected], informando o endereço e a periodicidade necessária para recolhimento. Para envio de materiais o serviço é gratuito, com taxa apenas para retirada emergencial de eletrodomésticos ou apenas um item

Também é possível levar o material até a sede da Asmar, na Rua dos Branquilhos, número 79, no bairro Nova Santa Marta, na Vila Pôr do Sol, de segunda a sexta-feira, das 7h30min às 17h30min. Dúvidas e demais informações podem ser consultadas pelo número (55) 98111-0146.

Arsele organiza brechós com materiais recicláveis como estojos e bolsas

A Associação de Reciclagem Seletivo Esperança (Arsele), no Bairro Salgado Filho, recebe materiais recicláveis de empresas cadastradas no serviço de descarte da startup Connect Sust. São enviados papelões, metais, vidros e plástico para a instituição, que passam por triagem para serem vendidos.

Um grupo de 20 pessoas realiza o trabalho de triagem e separação de todos os materiais recebidos. Para venda, apenas o papelão é compactado e transformado em lotes. Os demais materiais passam pela triagem e são separados para serem vendidos soltos em sacolas.

A associação também aceita tecidos, lonas, roupas e calçados. O destino de todos também a reciclagem. Dependendo da condição, eles serão vendidos no brechó da Arsele, ou serão reutilizados em bolsas, estojos e sacolas, readaptados em oficinas de costura. A equipe da costura conta com 4 mulheres, entre elas Laíse Brasil, secretaria da associação.

— A gente também tem uma rede de parceiros, e vamos nos lugares ensinar o pessoal a fazer. Nós queremos abrir uma fábrica de sacolas, porque é o item que mais vendemos, e fazemos de saco de ração, de banner e jeans. É sustentável e não precisamos comprar tanto material.

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